Estética como cuidado da alma (e por que não é consumismo)
Estética, no sentido filosófico, não é decoração do supérfluo; é a ciência do sensível. Desde Baumgarten e Kant, a estética pergunta: como percebemos? o que nos toca? por que algo nos parece belo? O belo não é só um “gosto pessoal”: é uma experiência que reorganiza o nosso interior. Por isso sair para um museu — — é um exercício de afinação: cada exposição se torna um laboratório de percepção, silêncio e respiração.
No encontro com uma obra, algo em nós encontra forma. Uma pincelada pode nos devolver o fôlego; um espaço expositivo bem iluminado pode abrir a caixa torácica; uma escultura pode recolocar o peso do corpo no eixo. A contemplação estética, quando vivida com presença, altera o estado de humor: desacelera, integra, oferta sentido (ainda que sem palavras).
Isso é o oposto do consumismo. O consumismo promete saciedade por acúmulo, mas opera por escassez: “falta algo, compre”. A estética, ao contrário, oferece plenitude por encontro: “algo chegou, contemple”. Em uma visita gratuita ao museu, não “possuímos” as obras; deixamos que elas nos possuam por alguns instantes — e esse instante basta para lembrar que o mundo não é só útil, é também gratuito e belo.
Práticas simples ajudam: chegar antes, respirar devagar, observar um único quadro por 5 minutos, anotar uma palavra, perceber a música do silêncio, sair sem pressa. Repare como o corpo sai diferente: o andar suaviza, o olhar amplia, a fala se torna mais precisa. O belo não resolve problemas, mas muda a qualidade com que os enfrentamos. É higiene do sensível; é cuidado da alma.

Instituto Anemos – Angela Paulette
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