Quando lemos que o número de imóveis vazios em São Paulo é muitas vezes maior do que o número de pessoas vivendo nas ruas, algo em nós se contrai. A razão entende: é injusto. Mas o corpo sente: há algo doente na alma coletiva.
Da porta de um hospital de elite às calçadas ocupadas por famílias despejadas; do lucro dos Infinito dos Bancos ao trabalho exaustivo de quem não recebe quase nada — tudo isso revela um mesmo núcleo simbólico: a escravidão como fantasma que ainda governa relações, valores e afetos.
Juridicamente, houve Abolição. Psiquicamente, a alforria foi em grande parte simbólica: o corpo mudou de condição, mas o imaginário permaneceu colonizado.
1. A Abolição como ato inacabado
Do ponto de vista junguiano, grandes eventos históricos não são apenas fatos políticos. Eles deixam marcas na psique coletiva na forma de complexos culturais.
A escravidão, no Brasil, não foi um episódio curto: foram séculos de pessoas reduzidas a mercadoria. Esse trauma não foi elaborado em profundidade. Não houve luto verdadeiro, reconhecimento da culpa, reparação concreta em larga escala. Houve, antes, um decreto jurídico que pôs fim à forma explícita do horror, mas não às suas raízes emocionais.
Quando um trauma não é elaborado, ele retorna como repetição. Na clínica individual, isso aparece como padrões de relacionamento abusivo, escolhas “misteriosamente” autodestrutivas, sentimentos de inferioridade ou de grandiosidade. No nível coletivo, vemos isso na naturalização da desigualdade, na violência policial seletiva, na precarização do trabalho, na ideia de que alguns nasceram para mandar e outros para servir.
É como se a Abolição tivesse libertado os corpos, mas não as imagens internas de “senhor” e de “escravo”.
2. O complexo senhor–escravo
Jung chamou de complexo um núcleo afetivo carregado, um conjunto de lembranças, imagens e emoções que se organiza em torno de uma experiência forte. O complexo tem certa autonomia: ele “toma” a pessoa em determinadas situações.
Podemos falar, no Brasil, de um complexo senhor–escravo:
- no polo do senhor, a fantasia de superioridade, o direito de explorar, a crença de que dinheiro e status são prova de valor intrínseco;
- no polo do escravo, a sensação de ser sempre “menos”, de ter que agradecer migalhas, de achar normal ser explorado, humilhado ou descartado.
Esse complexo se manifesta em muitas cenas do cotidiano:
- o patrão que fala com funcionários como se fossem invisíveis;
- o herdeiro que se sente especial apenas por ter nascido em certas famílias;
- o empresário que acredita que direitos trabalhistas são “mimimi”;
- o trabalhador que aceita jornadas desumanas por medo de passar fome;
- o garçom que limpa o banheiro imundo de madrugada, enquanto a dona recolhe o dinheiro.
Não é “só” maldade individual. É um padrão psíquico sedimentado, uma forma de relação que se aprendeu durante séculos e que continua atuando, a menos que seja trazida à consciência.
3. A sombra escravagista
Jung chama de sombra tudo aquilo que a consciência não suporta admitir sobre si mesma e, por isso, joga para o inconsciente. No Brasil, a sombra coletiva inclui:
- o racismo estrutural que muitos negam (“não sou racista, mas…”);
- a fantasia de “democracia racial” usada para evitar a dor de olhar nossas feridas;
- a ideia de que “pobre é assim mesmo”, “morador de rua escolheu estar ali”.
Quando a sombra não é reconhecida, ela é projetada. Assim, atribuímos aos mais vulneráveis todos os traços que não queremos ver em nós: preguiça, violência, “falta de mérito”, “inferioridade”.
Acontece então um fenômeno perverso: quem mais sofre é responsabilizado pela própria ferida.
É o antigo mecanismo escravagista, agora vestido de discurso meritocrático.
4. Corpos doentes, prédios vazios, ruas cheias
É como se o inconsciente dissesse:
“Vocês acreditam que alguns valem mais do que outros.
Mas a doença, a morte e a miséria mostram que todos são corpos frágeis.
O que vocês fazem com os mais pobres, fazem com uma parte de vocês mesmos.”
Os imóveis vazios são outro símbolo poderoso. A casa, em linguagem simbólica, é o lugar da alma, da proteção, do pertencimento. Ter milhares de casas vazias enquanto pessoas dormem na calçada é como se o país mantivesse um grande “templo” vazio, fechado, em culto ao patrimônio, enquanto expulsa seus próprios filhos para fora das muralhas.
Do ponto de vista junguiano, isso revela uma inversão de valores arquetípicos: protege-se o objeto (o bem, o dinheiro, o tijolo), e sacrifica-se o humano.
5. A persona cordial e o porão da casa
Há ainda a famosa persona do brasileiro cordial, simpático, “gente boa”.
A persona é a máscara social: necessária, mas perigosa quando confundida com a totalidade.
A cordialidade, quando autêntica, é uma benção. Mas frequentemente funciona como véu:
- “Somos acolhedores, portanto não somos racistas.”
- “Nossa cultura é alegre, portanto não somos violentos.”
- “Todo mundo aqui é misturado, então não existe privilégio.”
Por trás da máscara cordial, o porão está cheio de ossos: histórias de escravidão, estupros, torturas, genocídios, extermínio indígena, violência doméstica, assédios normalizados, trabalhos análogos à escravidão ainda hoje.
Enquanto o país insiste em dizer “não somos tão ruins assim”, o porão segue mandando recados.
Gostaria de mencionar que antes de entrar neste território simbólico, sonhei que era mãe de duas crianças africanas, nas quais as associei a Ibeji, e para dar voz a este inconsciente manifesto peco licença para adentrar mais fundo.
“Eu vejo as crianças que foram vendidas, separadas, invisibilizadas.
Eu honro as filhas negras que o meu inconsciente me trouxe em sonho.
Eu peço licença para entrar num território ferido com respeito e alegria.”
Ibeji, na cosmologia afro-brasileira, fala da infância, da brincadeira, da leveza, mas também da dignidade sagrada das crianças negras — tantas vezes desumanizadas, hipersexualizadas, apagadas das narrativas heroicas.
Na linguagem junguiana, podemos dizer que Ibeji é um arquétipo da infância divina: o potencial de um novo início, de uma relação mais justa entre os polos de poder. Cada criança representa um dos lados: senhor/escravo, rico/pobre, branco/negro, Norte/Sul. Quando brincam juntas, algo do complexo se transforma.
7. ADINKRA: símbolos como antídotos
No nosso próximo livro ADINKRA – Símbolos da Alma Africana no Imaginário Brasileiro, nos aproxima dos ideogramas da sabedoria Akan como quem recolhe sementes de memória. ADINKRA
Cada símbolo Adinkra é um condensado de experiência: resistência, coragem, hospitalidade, justiça, humildade. Em um país que herdou a escravidão, trabalhar conscientemente com esses símbolos é também um ato de reparação psíquica:
- devolve dignidade às matrizes africanas;
- oferece ao imaginário coletivo imagens de força e beleza onde só havia dor;
- cria pontes entre a experiência afro-brasileira e a linguagem simbólica universal.
Na perspectiva junguiana, esse trabalho é uma forma de imaginação ativa coletiva: olhar para um símbolo, dialogar com ele, deixar que ele nos transforme e revele algo de nossa sombra.
8. O que seria uma verdadeira alforria?
Se a Abolição jurídica foi apenas o primeiro passo, o que seria uma alforria psíquica?
Alguns movimentos possíveis:
- Nomear a violência
- Reconhecer que o país foi construído sobre trabalho escravo e genocídio.
- Assumir, sem defesas, que isso deixa marcas até hoje.
- Escutar as vozes silenciadas
- Ler, ouvir, estudar autores negros, indígenas, periféricos.
- Permitir que outros discursos desmontem nosso conforto.
- Rever privilégios
- Perceber como nos beneficiamos (ou não) das estruturas existentes.
- Transformar culpa paralisante em responsabilidade ativa.
- Transformar o cotidiano em pequeno rito de justiça
- Não naturalizar exploração no trabalho.
- Questionar práticas abusivas, ainda que pequenas.
- Apoiar projetos que busquem reparação e equidade.
- Trabalhar os próprios complexos
- Na psicoterapia, na análise de sonhos, na meditação, perguntar:
“Onde eu ajo como senhor?”
“Onde eu ajo como escravo?” - A verdadeira liberdade começa quando vamos saindo desses papéis automáticos.
- Na psicoterapia, na análise de sonhos, na meditação, perguntar:
O desafio é que esse gesto não fique só no plano individual.
A alforria verdadeira exige mudanças estruturais, políticas públicas, leis, fiscalizações, reparações materiais. Mas sem uma transformação no imaginário, as leis viram apenas papel.
É por isso que arte, ritual, escrita, símbolos e sonhos são tão importantes.
Eles mexem nos alicerces invisíveis.
Instituto Anemos – Angela Paulette

Deixe um comentário