O Sítio do Picapau Amarelo como mandala da infância: uma leitura junguiana amorosa e crítica

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Há obras que não moram apenas na memória: elas viram território psíquico. Para muitas crianças brasileiras, especialmente as que cresceram com poucas histórias contadas em casa, O Sítio do Picapau Amarelo foi exatamente isso — uma espécie de aldeia interna onde a imaginação podia respirar. Sob uma lente junguiana, o Sítio pode ser visto como uma mandala viva da infância — um lugar que reúne forças psíquicas essenciais para o desenvolvimento:

Dona Benta: a Velha Sábia e o eixo do sentido

Dona Benta ocupa o centro silencioso do Sítio. Ela é a “biblioteca viva” que dá coerência ao mundo, a figura que autoriza a imaginação a existir. No imaginário infantil, essa presença não é trivial: ela compensa ausências reais e oferece o que Jung chamaria de uma função orientadora do Self em formação.
Quando uma criança não recebe histórias em casa, a psique busca essa função em algum lugar — e encontra em figuras míticas, livros, professores, avós simbólicas, ou… num programa de TV que vira altar íntimo.

Tia Nastácia: a Grande Mãe cotidiana

Mais do que cozinhar, ela representa o gesto ancestral de cuidar do corpo e do coração. Em linguagem simbólica, ela é a mãe nutridora que transforma vida comum em aconchego ritual.
E aqui há um ponto crucial: essa função arquetípica é valiosíssima para a criança — mas, historicamente, foi colocada dentro de uma moldura social problemática.

A Cuca: a Sombra encantada

A Cuca não é apenas medo: ela é o mistério do instintivo, o lado noturno do imaginário que ensina a criança a lidar com o desconforto do desconhecido. A infância precisa de monstros “dosáveis”, porque eles funcionam como treinadores simbólicos do medo — transformando pavor difuso em narrativa organizada.

Emília: a Trickster luminosa

A Emília é a centelha de caos criativo. Ela subverte regras, ri da solenidade dos adultos, e dá à criança a sensação de que pensar por si mesma é permitido.
Ela é o arquétipo do Trickster com perfume de heroína: desobediente com propósito, irreverente como ferramenta de liberdade.

Visconde: o intelecto menino

Ele representa o aspecto da psique infantil que gosta de construir explicações, catalogar, aprender. É uma inteligência afetiva e brincalhona — não uma mente separada do corpo, mas uma mente que ainda sabe dançar com o imaginário.

Tio Barnabé: o Guardião da mata e do limiar

Em muitas leituras simbólicas, ele aparece como alguém ligado ao conhecimento da terra e às margens do doméstico.

Príncipe Escamado: o primeiro brilho do Animus

Sim — para muitas meninas (e para qualquer criança que tenha um mundo interno rico), o “primeiro Animus” às vezes aparece como figura de encanto e promessa: o masculino interno como coragem, aventura e chamada para o mundo.


Uma leitura amorosa não precisa ser cega

O Sítio carrega marcas do racismo estrutural da época e de como o imaginário brasileiro foi historicamente narrado.
Reconhecer isso não exige apagar a importância afetiva do que a obra ofereceu.

Em termos junguianos, isso é uma forma adulta de integração:

  • não idealizar o objeto amado,
  • nem destruí-lo,
  • mas olhar sua luz e sua sombra com consciência.

Assim, a experiência infantil é honrada, e o pensamento crítico é incorporado como parte da individuação.


O Sítio como direito psíquico das crianças

“Ouvir histórias devia ser um direito de toda criança.”

Porque histórias não são enfeites culturais; são alimento da alma.
Elas ensinam a criança a nomear emoções, a atravessar medos, a sonhar futuros.
Sem narrativa, o inconsciente fica sem linguagem compartilhável.
Com narrativa, nasce o mapa.

E quando a família não oferece esse espaço, uma obra como o Sítio pode se tornar família simbólica, oferecendo arquétipos que organizam a psique em crescimento.


Instituto Anemos – Angela Paulette

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