Há violências que não terminam quando a lei muda. Elas mudam de roupa. A escravidão não foi apenas um sistema econômico: foi uma fábrica de psiquismo, uma pedagogia do corpo “descartável”, um treinamento coletivo para naturalizar desigualdade, medo e silêncio. E quando um trauma é grande demais para ser sentido, ele não desaparece: ele se espalha.
Na psicologia junguiana, aquilo que uma cultura não reconhece em si tende a cair no território da Sombra. A Sombra não é “o mal” em abstrato: é o que foi empurrado para baixo da consciência porque doía, envergonhava, comprometia a imagem de “civilização”, ou ameaçava privilégios. E o que é reprimido, cedo ou tarde, busca uma forma de retorno.
1) Do cativeiro ao asfalto: o que foi herdado sem nome
A escravidão deixou marcas materiais (desigualdade persistente, acesso desigual à moradia, saúde, educação) e também marcas simbólicas:
- a experiência de ser tratado como “menos gente”;
- a normalização da humilhação como método;
- a ideia de que a vida de alguns vale pouco;
- a sensação coletiva de que a cidade é um lugar onde se sobrevive, não necessariamente onde se pertence.
Quando uma sociedade não elabora luto e culpa, ela inventa amnésia. Mas a amnésia não cura: ela só empurra a ferida para o subterrâneo.
2) Duas sombras que se encaram: abandono e predador
No centro das grandes cidades, essa ferida aparece com duas faces que chocam e confundem:
- a face do abandono (pessoas em situação de rua, corpos exaustos, ruptura de vínculos, desalento);
- a face do predador (furtos, assaltos, mercados paralelos, “pega ladrão”, medo cotidiano).
É importante dizer com clareza: compreender não é romantizar. Uma análise simbólica não absolve crime. Ela tenta enxergar o motor psíquico do fenômeno para que a resposta não seja só punição e repetição.
Em linguagem junguiana, quando falta pertencimento e dignidade, surgem compensações sombrias:
- Identificação com o agressor: quem foi esmagado pela força aprende a admirar a força que esmagou.
- Dissociação: para agir sem culpa, a pessoa se desliga do rosto do outro (o outro vira “alvo”, “coisa”, “o playboy”, “o turista”, “o trouxa”).
- Complexo do saque: se o mundo me saqueou (ou saqueou os meus), eu “recupero” à força.
- Economia do atalho: quando o caminho legítimo é percebido como impossível, o atalho vira destino.
O resultado é um teatro trágico: a cidade vira um campo em que todos se defendem, e a defesa vira ataque.
3) O que a Sombra pede (quando ela grita)
A Sombra coletiva costuma pedir três coisas ao mesmo tempo:
- Verdade (nomear o que aconteceu e o que continua);
- Limite (ninguém amadurece num mundo sem consequência);
- Reparação (não só material, também simbólica e relacional).
Quando uma dessas três falta, as outras ficam doentes. Verdade sem reparação vira cinismo. Reparação sem limite vira permissividade que destrói os frágeis. Limite sem verdade vira violência institucional que recicla trauma.
4) Reparação simbólica: o que é, e por que funciona
Reparação simbólica é quando uma cultura cria formas visíveis de reconhecer a ferida e devolve humanidade onde houve desumanização. Isso pode acontecer por políticas públicas e também por cultura, arte e rito laico.
Exemplos de reparação simbólica:
- Memoriais e marcas urbanas: placas, rotas da memória, toponímia revista, narrativas públicas.
- Arte como re-humanização: retratar pessoas historicamente desfiguradas pela história, devolvendo rosto, nome, complexidade.
- Rituais comunitários sem espetáculo: encontros de escuta, leitura, canto, plantio, cuidado.
- Economia do cuidado: projetos que gerem pertencimento real (formação, emprego digno, tratamento de dependência, moradia, saúde mental).
Na alma, símbolo é ferramenta de integração. Ele não apaga o real, mas muda o destino do real dentro do psiquismo coletivo.
5) Caminho artístico aqui: transformar a rua em mito reparador
O mito ritualístico fala com o inconsciente sem pedir licença. Ele entra pelos olhos, como quem acende uma lamparina no porão.
A cidade pode continuar dura. Mas o símbolo abre uma fresta: ele lembra que ainda existe alma, e que a alma pode organizar novas escolhas.
A escravidão não acabou apenas quando acabou. Ela termina de verdade quando a cultura aprende a reconhecer sua Sombra sem se apaixonar por ela, e quando escolhe reparar sem repetir.
Fotografia e texto: Instituto Anemos – Angela Paulette

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