Memória viva, reparação simbólica e sombra urbana em uma leitura junguiana
No centro de São Paulo, existe um ponto de gravidade psíquica. De um lado, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Em frente, a estátua da Mãe Preta. E ao redor, quase sempre, pessoas em situação de rua, como se a cidade inteira confessasse, sem palavras, que a ferida histórica continua produzindo abandono no presente.
Todos os anos acontece ali um rito chamado Lavagem da Mãe Preta. Eu estive presente em uma dessas lavagens, conduzida por uma Mãe de Santo. Primeiro, lavaram a escadaria. Depois, derramaram leite sobre a estátua. Cantaram músicas tradicionais. E, ao final, soltaram uma pomba branca pedindo paz.
É um ritual forte. E, quando escolhi recentemente uma imagem para um texto sobre escravidão, essa lembrança voltou como um chamado: não apenas para “lembrar” com a mente, mas para compreender o que esse gesto coletivo significa no corpo da cidade e no corpo da alma.
Neste post, proponho uma leitura inspirada na psicologia analítica de Jung. Não para “explicar” o sagrado do outro, mas para escutar o símbolo e reconhecer o que ele tenta curar.
A estátua como núcleo arquetípico: quando a cidade sonha acordada
Certos lugares funcionam como sonhos fixados em pedra.
A Mãe Preta, como imagem pública, carrega uma condensação de sentidos: cuidado, leite, trabalho, servidão, violência histórica, ternura arrancada, fé sobrevivente, dor ancestral. Ela não é apenas uma figura devocional. Ela é também um espelho: um ponto onde o inconsciente coletivo encontra uma forma.
Quando um símbolo assim permanece vivo na paisagem, ele opera como um “órgão” da psique social: ele chama, atrai, incomoda, consola. E, às vezes, reúne em volta exatamente aquilo que a sociedade não quer ver. A presença constante de indigentes ao redor da estátua não é detalhe. É a sombra urbana orbitando o símbolo, como se dissesse:
“A história não acabou. A ferida ainda produz consequência.”
A lavagem da escada: purificar o limiar, não negar o passado
A escada é um símbolo universal de passagem: subida, acesso, transição. Ela é o lugar do “entre”, o limiar onde o cotidiano pode tocar o sagrado. Em Jung, tudo que é limiar interessa porque é ali que o inconsciente costuma falar mais alto.
Quando a escada é lavada, o gesto não parece ser apenas “limpeza”. É um ato de ordenação simbólica: a comunidade lava o caminho para que a travessia seja possível. A escada lavada se torna uma frase ritual feita com água:
“Podemos subir, mas sem pisar em negação.”
É como se o rito lembrasse que não existe elevação verdadeira quando se tenta passar por cima da dor histórica sem reconhecê-la.
O leite derramado: um branco que não apaga, um branco que nutre
Aqui, o símbolo fica ainda mais profundo.
O leite é alimento primordial. É o primeiro pacto de vida: “você pode existir, você será nutrido”. Mas no contexto histórico da escravidão e de suas continuidades, a imagem da mulher negra associada ao leite e ao cuidado também carrega um lado sombrio: muitas foram obrigadas a amamentar, servir, sustentar vidas alheias enquanto seus próprios vínculos eram violados.
Por isso, derramar leite sobre a Mãe Preta pode tocar duas camadas ao mesmo tempo:
- Benção e restituição: devolver honra ao gesto materno, reconhecer sua dignidade.
- Luto e consciência: lembrar o que foi sequestrado desse materno, aquilo que foi explorado.
O leite, então, deixa de ser ingenuidade. Ele vira alquimia. Um “branco” que não é apagamento, mas nutrição reparadora, como se o rito dissesse:
“Que a cidade aprenda a cuidar do que sempre foi usado sem cuidado.”
O canto tradicional: o fio que costura o coletivo
Os cantos não são enfeite. Eles são tecnologia espiritual e psíquica.
Cantar juntos muda a respiração do grupo, o ritmo do coração, o campo emocional. O canto organiza o indizível e dá forma a algo que, sem forma, pode virar apenas descarga, raiva, anestesia ou culpa.
Na linguagem junguiana, o canto é uma forma de contenção: ele segura a intensidade para que a comunidade atravesse a lembrança sem colapsar.
O que a fala racional não consegue sustentar, o canto sustenta.
A pomba branca: o desejo de paz como psicopompia
E então, a pomba é solta.
A imagem é simples e antiga: um mensageiro de paz. Mas, simbolicamente, ela faz algo importante: ela fecha o rito. Ela dá ao coletivo um gesto de conclusão, uma direção para onde a energia vai.
Em termos da psique, isso é psicopompia: conduzir algo do peso para o movimento, do trauma para um caminho de transformação. A pomba é o “envio” final:
“Que a paz seja consciência, não amnésia.”
Porque existe uma paz que é apenas apagamento. E existe outra, mais rara, que nasce quando se reconhece o passado, se lamenta de verdade, e se escolhe outra ética para o presente.
Sombra urbana: o entorno como parte do símbolo
Há um ponto decisivo: o ritual não acontece num “templo isolado”, longe da vida real. Ele acontece na rua, onde a desigualdade respira. E isso torna tudo mais verdadeiro e mais doloroso.
A Mãe Preta cercada por indigentes é uma imagem que fere e ensina. Ela expõe o contraste brutal entre o símbolo de cuidado e a realidade de abandono. Não é contradição casual: é uma pergunta viva.
Se a Mãe Preta é o arquétipo do cuidado, por que há tantos corpos sem cuidado ao seu redor?
Aí o rito ganha seu sentido mais atual: ele não serve apenas para lembrar a escravidão como fato histórico. Ele chama a comunidade a perceber as continuações: a pobreza racializada, o descaso, a invisibilidade, a precarização.
O símbolo denuncia. O rito responde. E o presente é convocado.
Reparação simbólica: o que um rito pode (e o que ele não pode)
Um ritual não “resolve” injustiças estruturais. Ele não substitui política pública, moradia, saúde mental, trabalho digno, reparação material.
Mas o ritual pode fazer algo fundamental: ele pode mudar a alma da cidade. E sem essa mudança, até ações concretas perdem raiz e repetem o mesmo padrão.
A reparação simbólica tem valor porque ela rearranja a consciência coletiva. Ela diz:
- isto importa,
- isto dói,
- isto não será negado,
- isto merece cuidado.
E quando um povo nomeia o que antes era empurrado para o porão, ele dá um primeiro passo para não repetir o mesmo destino.
Fechamento ritual
Uma breve consagração para depois da leitura
Se você chegou até aqui e sentiu o peito ficar pesado, faça comigo um gesto simples. Não para “se livrar” da dor, mas para devolver ao corpo um eixo.
- Coloque uma mão no coração e outra no ventre.
- Inspire devagar. Solte o ar como quem alisa uma chama.
- Diga em voz baixa (ou só por dentro):
“Eu vejo. Eu honro. Eu não nego.
Que a memória vire cuidado.
Que a dor vire consciência.
Que a paz seja justiça em caminho.”
E, se quiser, finalize com água nas mãos, como uma micro-lavagem. Uma pequena lembrança: o símbolo não termina no texto. Ele continua na forma como olhamos, no que escolhemos apoiar, e no cuidado que praticamos onde estivermos.
Que a Mãe Preta receba leite como honra.
E que ninguém ao redor dela precise continuar com fome.
Texto e fotografia: Instituto Anemos – Angela Paulette

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