A Luz e a Sombra: Lucifer na Perspectiva Junguiana

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Há uma frase na liturgia em latim que abre uma porta simbólica muito antiga: “ante luciferum genui te”. Muita gente estranha a palavra luciferum, porque “Lúcifer” ganhou, ao longo dos séculos, um sentido sombrio. Mas no latim clássico e bíblico, lucifer é, literalmente, o portador da luz, a estrela da manhã, a aurora chegando.

Na experiência do canto, essa palavra funciona como um mecanismo psíquico: ela faz a alma lembrar que existe uma luz anterior ao nosso “eu de todo dia”.

Jung e a luz que vem antes do ego

Na psicologia analítica, o Self não é o ego “melhorado”. O Self é a totalidade organizadora da psique, algo mais vasto que o eu consciente. Quando a liturgia diz “antes da aurora eu te gerei”, a imagem pode ser ouvida assim:

  • Antes de você “virar alguém” no mundo, já existia em você uma semente de sentido.
  • Antes da sua história pessoal, há uma camada impessoal, arquetípica, ancestral, que Jung chamaria de inconsciente coletivo.
  • Antes do pensamento, existe uma ordem mais profunda: uma música interna.

E então surge uma pergunta que tem cheiro de ouro antigo:

Se eu fui “gerada antes da aurora”, o que em mim é anterior aos meus medos?

“In splendoribus sanctorum” – o esplendor dos santos

Outra imagem do trecho é o “esplendor dos santos”. Psicologicamente, “santos” podem ser lidos como potências integradas: qualidades humanas que não foram sequestradas pela sombra. O esplendor não é perfeição. É coerência. É quando algo em nós para de se dividir.

A sombra também quer a luz

Existe um detalhe delicado e muito junguiano aqui: quando uma palavra carrega história sombrinha (como lucifer), ela vira convite para discernimento. A luz pode ser “luz que guia”, mas também pode ser “luz que seduz” (aquela pressa de brilhar, de provar, de vencer). A individuação pede uma pergunta simples:

Esta luz me centra ou me infla?

Fechamento ritual:
Coloque a mão no peito e diga em voz baixa:
“Que a luz que nasce em mim seja humilde, verdadeira e centrada.”

Arte e texto: Instituto Anemos – Angela Paulette

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