Há lugares que não são apenas “lugares”. São recipientes. Entramos, e algo dentro de nós começa a se organizar. Em linguagem junguiana, isso é um temenos: um espaço onde a psique encontra forma, medida e centro.
O Mosteiro de São Bento, em São Paulo, é um desses lugares. A nave alta puxa o olhar para cima, mas o chão em padrão geométrico devolve o peso do corpo para a Terra. E nessa dança, corpo e espírito deixam de brigar. Eles começam a conversar.
O que o Mosteiro “mostra” para a alma
Quando olho para os afrescos, os medalhões, os vitrais e o altar, vejo uma pedagogia silenciosa do Self:
- Verticalidade: a arquitetura ensina a dimensão do “alto” sem negar o “baixo”. A psique aprende que transcendência sem enraizamento vira fuga; e enraizamento sem céu vira prisão.
- Imagens como linguagem do inconsciente: os santos, os anjos, as inscrições e os símbolos não “decoram”. Eles falam. São como sonhos pintados em escala humana.
- O altar como centro visível: ali a comunidade se orienta. Jung diria: o Self tende a se representar como centro e circunferência. O altar não é só um ponto físico. É um convite: “volte ao eixo”.
- Vitrais: luz colorida não é luz neutra. É luz “interpretada”. Exatamente como a consciência: ela ilumina o mundo com tonalidades psíquicas.
A Missa do Galo como ritual de reorganização interna
O Natal, na linguagem dos símbolos, é uma cena arquetípica: algo nasce no escuro. A Missa do Galo, com canto, silêncio e repetição ritual, cria um ritmo que a mente sozinha raramente consegue sustentar. A repetição, quando é devocional, vira música para o inconsciente.
Um jeito simples de “levar o Mosteiro para casa”
Escolha um detalhe (um vitral, um arco, uma inscrição, a cruz, um afresco). Feche os olhos por 30 segundos e pergunte:
- Qual parte de mim quer ser lembrada aqui?
- O que em mim está sem centro e pede eixo?
- O que em mim está rígido e pede música?
Fechamento ritual (curto):
Respire 3 vezes. Na inspiração: “Centro”. Na expiração: “Presença”.
E finalize com uma frase simples: “Que o Self governe com ternura.”
Arte e Texto: Instituto Anemos – Angela Paulette

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