Unidade Latino-Americana: Entre Símbolos e Culturas

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Exposição Joaquin Torres Garcia

Entrei no CCBB como quem entra num átrio antigo onde o ar tem memória. Acima, a claraboia: um retângulo de céu domesticado pela arquitetura, luz filtrada em geometria, como se o próprio edifício dissesse que o invisível também pode ter estrutura. A luz desce em silêncio, atravessa o vazio central e encontra, pendurada no coração do espaço, algo com uma tapeçaria monumental. Ela não está “exposta”. Ela está entronizada. É um estandarte vertical, um corpo longo que cai do alto ao chão, como se o teto tivesse soltado uma língua de cor para o edifício aprender a falar outra vez.

E então o olhar desce com ela. Quadrinho por quadrinho, uma grade viva: pequenos campos cromáticos como retalhos, cada um guardando um sinal, um emblema, uma forma simples e insistente. Cruzamentos, círculos, flechas, pequenos sóis, marcas que parecem bandeiras íntimas, alfabetos sem dicionário. Nada ali grita. Tudo indica. É como se a obra dissesse: “Unidade não é uma ideia abstrata. Unidade é uma costura.” E a costura, ao contrário do cimento, não apaga as diferenças: ela as aproxima com respeito, deixando a margem de cada tecido respirar.

A arquitetura ao redor faz um contraponto perfeito. As varandas internas, os ferros trabalhados, as curvas clássicas, os corredores que se repetem em andares como um mantra. O prédio é tradição, permanência, uma espécie de ordem. E no centro, pendurado como uma bandeira-templo, está o risco contemporâneo: o símbolo em série, a linguagem sem fronteira, o chamado para um continente que quer se reconhecer como corpo. A obra vira um eixo: não apenas decorativo, mas ritual. Um temenos público. Um altar laico onde a pergunta não é “de onde você vem?”, e sim: “o que pode ser unido sem que ninguém precise desaparecer?”

Torres-García: estrutura como chão, símbolo como respiração

Na exposição dedicada aos 150 anos de Joaquín Torres-García, o que me toca não é só a história de um artista central para a modernidade latino-americana, mas o modo como ele constrói uma ética do olhar. Seu Universalismo Construtivo parece propor um pacto: a geometria dá chão, a grade organiza o caos, mas dentro dessa ordem o símbolo permanece livre para dizer o indizível. É como se a forma dissesse “aqui é seguro”, para que a alma finalmente fale. A obra deixa de ser mero objeto e vira instrumento: uma pedagogia silenciosa de integração. (E isso, para mim, é profundamente terapêutico.)

Há algo de muito potente nessa ideia: o “construtivo” não como frieza, mas como contenção amorosa. Um recipiente. Um vaso. Um contorno que permite ao sagrado não transbordar em ruído. Ao ver a esta instalação que remete a uma tapeçaria, senti que ela funciona como um mapa sem países: um mapa de forças, sinais e memórias, onde a América Latina não é um conjunto de fronteiras, mas um tecido de histórias.

A integração como gesto, não como slogan

Falar em integração latino-americana pode soar político, acadêmico, distante. Mas ali, diante da tapeçaria, isso virou sensação física. Um continente não se integra por discurso. Se integra por circulação: de cultura, de dignidade, de oportunidades, de arte, de cuidado, de economia justa, de reconhecimento mútuo. Se integra quando a diferença deixa de ser ameaça e vira repertório.

A obra na entrada, parece apresentar uma metáfora simples: cada símbolo é uma identidade, uma voz, uma história. E a unidade não acontece por redução, mas por composição. Não é “todo mundo igual”. É “todo mundo incluído”. Não é apagar a singularidade para caber num molde. É criar um molde amplo o suficiente para a singularidade existir sem medo.

E talvez seja por isso que essa exposição reverbera tanto: ela toca uma ferida antiga do nosso continente. A ferida da separação. A ferida de projetos interrompidos, de sonhos adiados, de mãos desunidas por interesses, por violência, por medo. Mas ela também toca o antídoto: a capacidade de imaginar um “nós” que não seja uma prisão, e sim um pacto vivo.

Símbolo e inconsciente coletivo: quando a imagem nos sonha

No Instituto Anemos, a gente aprende a escutar uma coisa fundamental: o símbolo não é um enfeite, é um acontecimento psíquico. Ele aparece quando a alma precisa dizer algo que a linguagem direta não alcança. E quando um símbolo nos toma com força, muitas vezes não é só “minha história pessoal” que se mexe. É o campo maior, aquilo que Jung chamou de inconsciente coletivo: a camada profunda onde vivem imagens arquetípicas, memórias transgeracionais, padrões humanos que atravessam culturas e épocas. Por isso certas obras não são “sobre algo”: elas são como portas. A imagem nos chama porque ela encosta em uma região onde o individual e o histórico se misturam. Um símbolo pode ativar lembranças que nem são exatamente lembranças, mas ecos. O corpo reconhece antes que a mente explique. E nesse reconhecimento, algo quer ser integrado, curado, costurado de volta ao todo.

Um portal para o presente

Saí do CCBB com a sensação de que aquela tapeçaria é uma pergunta pendurada no centro da cidade. A pergunta não é ideológica. É existencial:

Que tipo de unidade queremos construir?
Uma unidade que controla? Ou uma unidade que acolhe?
Uma unidade que uniformiza? Ou uma unidade que compõe?

Talvez o gesto mais revolucionário seja este: olhar para a América Latina não como um mapa de fronteiras, mas como um corpo de múltiplas vozes. E entender que a unidade não é um destino pronto. É uma obra em processo. Uma costura cotidiana, feita de escolhas concretas: cultura, educação, justiça, cuidado, circulação de oportunidades, respeito às raízes e coragem de reinventar o futuro.

A claraboia, lá em cima, seguia derramando luz como se fosse simples. E a tapeçaria, lá no meio, seguia dizendo o que a luz sozinha não diz: que a história não termina no medo. Que há sinais antigos esperando novas mãos. E que, quando um símbolo nos chama, talvez seja porque ele já começou a nos unir por dentro, antes mesmo de a gente compreender.

Resumo

Torres-García é um dos pilares da arte moderna latino-americana, e esta mostra no CCBB celebra seus 150 anos, reunindo um conjunto vasto de obras e documentos, com pinturas, desenhos, manuscritos, maquetes e até os brinquedos de madeira ligados à família do artista.

O que me atravessa no trabalho dele é a ideia do Universalismo Construtivo: uma estrutura (a grade, o construtivo) que não esfria a alma, mas a organiza para que o símbolo possa falar. Geometria como chão, símbolo como respiração.

E quando penso em integração latino-americana, lembro de um gesto que é quase um feitiço político-poético: “América Invertida” (1943), o mapa virado que insiste em reposicionar nosso olhar, como quem diz: talvez a bússola também seja uma construção.

Talvez a tarefa do nosso século seja simples e difícil: transformar a diferença em linguagem comum, sem apagar a singularidade de ninguém. Um continente não se integra por uniformidade. Se integra por reconhecimento, por circulação de dignidade, por justiça, por cultura compartilhada, por um “nós” que não vira prisão.

Saí com a sensação de que a obra de Torres-García não é só sobre arte. É sobre orientação interna. Sobre aprender a dizer:
“Nosso centro pode nascer aqui.”

📍 CCBB São Paulo
🗓️ 10/12/2025 a 09/03/2026 (entrada gratuita, com retirada de ingressos)
Mais informações: ccbb.com.br (programação da exposição)

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