Memória, mãe, tempo circular e a imagem como alma: uma leitura junguiana
O Espelho é um filme que não caminha. Ele flutua. Ele se move como a memória real: por aproximações, cortes, retornos, brilhos, sombras. Não é um filme para “entender”. É um filme para reconhecer.
O Espelho é um retrato do que Jung chamaria de psique em processo de totalização: quando lembranças, sonhos, arquétipos e vida cotidiana se misturam para formar uma verdade maior que a cronologia.
1) O tempo circular: a psique não é relógio
A memória no filme não segue linha reta. Ela retorna, repete, reorganiza. Isso é profundamente junguiano: o inconsciente não trabalha por datas. Ele trabalha por temas.
Você sonha com a infância quando a infância precisa ser integrada. Você retorna à mãe quando o vínculo materno ainda governa escolhas atuais. Você revive uma cena quando ela guarda um símbolo que ainda não foi decifrado.
O tempo circular em O Espelho mostra: a alma não “passa”. Ela aprofunda.
2) A mãe: arquétipo e história, ferida e origem
A mãe em O Espelho é uma presença central, mas não como personagem. Como campo. Como atmosfera.
Em Jung, a Mãe é um arquétipo ambivalente:
- nutre e acolhe
- mas também pode aprisionar, exigir, culpar
- pode ser proteção e destino
Tarkovsky filma a mãe com uma reverência dolorosa: ela é amor e ameaça, lar e abismo. E isso é verdadeiro. Porque nenhum vínculo fundamental é “simples”. Ele é matriz.
No filme, a mãe aparece não só como pessoa, mas como a própria sensação do mundo quando se é pequeno: o cheiro, o medo, a esperança, a espera.
3) A memória como imaginação ativa
Jung via a imaginação ativa como uma ponte consciente para o inconsciente: dialogar com imagens internas para integrar conteúdos.
O Espelho faz isso como cinema: ele não relata lembranças, ele as encena como imagens vivas. É como se estivéssemos dentro de uma sessão de imaginação ativa, onde:
- uma cena chama outra
- um símbolo abre um corredor
- um som vira portal
- uma poesia vira destino
Isso explica por que o filme é tão comovente: ele fala a língua do inconsciente, não a língua do argumento.
4) O espelho: identidade como relação, não como “eu fixo”
O espelho não é só objeto. É ideia: quem sou eu, quando me vejo? Quem sou eu, quando sou visto?
No plano simbólico, o espelho aponta para a tensão entre:
- Persona (a máscara social)
- Eu (o centro consciente)
- Self (a totalidade que observa por trás)
O espelho mostra que identidade não é coisa sólida. É relação viva entre imagens internas e mundo externo. E por isso, a identidade muda quando uma memória é reintegrada.
5) Imagens como alma: o cinema como órgão do inconsciente
Tarkovsky tem um dom raro: ele filma a imagem como se ela tivesse alma própria. E isso é profundamente junguiano: imagens não são “decoração”. São veículos do inconsciente.
Em O Espelho, a imagem não serve à história. A história serve à imagem. Como nos sonhos: você não sonha para contar enredo. Você sonha para o símbolo se revelar.
Por isso, assistir ao filme é como visitar um altar: você não precisa entender tudo. Você precisa sentir o que o símbolo acorda em você.
6) Poesia: a palavra como fio de ouro (e a presença do pai-poeta)
A presença da poesia no filme é o equivalente ao “fio de ouro” em um labirinto. Ela costura o indizível. Ela dá forma ao que não cabe em prosa.
Jung diria que a poesia tem afinidade com o inconsciente porque ela não depende apenas de explicação: ela depende de ressonância. A poesia chega onde a lógica não alcança.
Se o pai-poeta aparece como voz, ele funciona como uma espécie de Logos sutil: não o logos técnico de HAL, mas um logos que canta, que nomeia com delicadeza. É o masculino simbólico em modo poético, não dominador.
7) O fogo, a água, o vento: elementos como afetos
Tarkovsky usa elementos como estados internos:
- água: memória, inconsciente, luto, purificação
- fogo: transformação, crise, revelação, destino
- vento: invisível em movimento, presença do que não se vê
- terra: origem, corpo, lar, gravidade
Esses elementos são psique em estado natural. É por isso que o filme parece “sensação” mais do que narrativa.
8) O núcleo junguiano: integrar a vida para nascer inteiro
No fundo, O Espelho é um filme sobre individuação: não sobre “superar o passado”, mas sobre integrá-lo.
Integrar não é romantizar. É reconhecer. É aceitar a ambivalência:
- amar e doer
- lembrar e chorar
- agradecer e lamentar
- ser filho e ser adulto ao mesmo tempo
Quando isso acontece, algo dentro se reorganiza. O espelho deixa de ser acusação e vira compreensão.
Encerramento
O Espelho nos diz, sem dizer:
você não é uma linha do tempo. Você é um campo de imagens.
E quando as imagens se reconciliam, nasce um silêncio novo.
Talvez por isso Tarkovsky seja tão profundo: ele não quer nos distrair. Ele quer nos devolver a nós mesmos.
Texto e imagem: Instituto Anemos – Angela Paulette

Deixe um comentário