O ESPELHO (1975), Tarkovsky

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Tarkovski

Memória, mãe, tempo circular e a imagem como alma: uma leitura junguiana

O Espelho é um filme que não caminha. Ele flutua. Ele se move como a memória real: por aproximações, cortes, retornos, brilhos, sombras. Não é um filme para “entender”. É um filme para reconhecer.

O Espelho é um retrato do que Jung chamaria de psique em processo de totalização: quando lembranças, sonhos, arquétipos e vida cotidiana se misturam para formar uma verdade maior que a cronologia.

1) O tempo circular: a psique não é relógio

A memória no filme não segue linha reta. Ela retorna, repete, reorganiza. Isso é profundamente junguiano: o inconsciente não trabalha por datas. Ele trabalha por temas.

Você sonha com a infância quando a infância precisa ser integrada. Você retorna à mãe quando o vínculo materno ainda governa escolhas atuais. Você revive uma cena quando ela guarda um símbolo que ainda não foi decifrado.

O tempo circular em O Espelho mostra: a alma não “passa”. Ela aprofunda.

2) A mãe: arquétipo e história, ferida e origem

A mãe em O Espelho é uma presença central, mas não como personagem. Como campo. Como atmosfera.

Em Jung, a Mãe é um arquétipo ambivalente:

  • nutre e acolhe
  • mas também pode aprisionar, exigir, culpar
  • pode ser proteção e destino

Tarkovsky filma a mãe com uma reverência dolorosa: ela é amor e ameaça, lar e abismo. E isso é verdadeiro. Porque nenhum vínculo fundamental é “simples”. Ele é matriz.

No filme, a mãe aparece não só como pessoa, mas como a própria sensação do mundo quando se é pequeno: o cheiro, o medo, a esperança, a espera.

3) A memória como imaginação ativa

Jung via a imaginação ativa como uma ponte consciente para o inconsciente: dialogar com imagens internas para integrar conteúdos.

O Espelho faz isso como cinema: ele não relata lembranças, ele as encena como imagens vivas. É como se estivéssemos dentro de uma sessão de imaginação ativa, onde:

  • uma cena chama outra
  • um símbolo abre um corredor
  • um som vira portal
  • uma poesia vira destino

Isso explica por que o filme é tão comovente: ele fala a língua do inconsciente, não a língua do argumento.

4) O espelho: identidade como relação, não como “eu fixo”

O espelho não é só objeto. É ideia: quem sou eu, quando me vejo? Quem sou eu, quando sou visto?

No plano simbólico, o espelho aponta para a tensão entre:

  • Persona (a máscara social)
  • Eu (o centro consciente)
  • Self (a totalidade que observa por trás)

O espelho mostra que identidade não é coisa sólida. É relação viva entre imagens internas e mundo externo. E por isso, a identidade muda quando uma memória é reintegrada.

5) Imagens como alma: o cinema como órgão do inconsciente

Tarkovsky tem um dom raro: ele filma a imagem como se ela tivesse alma própria. E isso é profundamente junguiano: imagens não são “decoração”. São veículos do inconsciente.

Em O Espelho, a imagem não serve à história. A história serve à imagem. Como nos sonhos: você não sonha para contar enredo. Você sonha para o símbolo se revelar.

Por isso, assistir ao filme é como visitar um altar: você não precisa entender tudo. Você precisa sentir o que o símbolo acorda em você.

6) Poesia: a palavra como fio de ouro (e a presença do pai-poeta)

A presença da poesia no filme é o equivalente ao “fio de ouro” em um labirinto. Ela costura o indizível. Ela dá forma ao que não cabe em prosa.

Jung diria que a poesia tem afinidade com o inconsciente porque ela não depende apenas de explicação: ela depende de ressonância. A poesia chega onde a lógica não alcança.

Se o pai-poeta aparece como voz, ele funciona como uma espécie de Logos sutil: não o logos técnico de HAL, mas um logos que canta, que nomeia com delicadeza. É o masculino simbólico em modo poético, não dominador.

7) O fogo, a água, o vento: elementos como afetos

Tarkovsky usa elementos como estados internos:

  • água: memória, inconsciente, luto, purificação
  • fogo: transformação, crise, revelação, destino
  • vento: invisível em movimento, presença do que não se vê
  • terra: origem, corpo, lar, gravidade

Esses elementos são psique em estado natural. É por isso que o filme parece “sensação” mais do que narrativa.

8) O núcleo junguiano: integrar a vida para nascer inteiro

No fundo, O Espelho é um filme sobre individuação: não sobre “superar o passado”, mas sobre integrá-lo.

Integrar não é romantizar. É reconhecer. É aceitar a ambivalência:

  • amar e doer
  • lembrar e chorar
  • agradecer e lamentar
  • ser filho e ser adulto ao mesmo tempo

Quando isso acontece, algo dentro se reorganiza. O espelho deixa de ser acusação e vira compreensão.

Encerramento

O Espelho nos diz, sem dizer:
você não é uma linha do tempo. Você é um campo de imagens.
E quando as imagens se reconciliam, nasce um silêncio novo.

Talvez por isso Tarkovsky seja tão profundo: ele não quer nos distrair. Ele quer nos devolver a nós mesmos.


Texto e imagem: Instituto Anemos – Angela Paulette

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