Uma leitura junguiana: o oceano que sonha, a memória que encarna, o amor como prova de realidade
Há ficções científicas que olham para fora. Solaris olha para dentro. E, ao olhar para dentro, ele descobre um universo ainda mais vasto.
Em vez de batalhas espaciais, Tarkovsky nos oferece um enigma íntimo: uma estação orbitando um planeta-cérebro, um oceano vivo capaz de materializar aquilo que os homens carregam no mais secreto. Não é um “alien” no sentido clássico. É algo mais perturbador: um espelho que não reflete o rosto, reflete a alma.
Na psicologia analítica, Solaris pode ser lido como um mito moderno sobre o encontro entre ego e inconsciente, entre memória e culpa, entre amor e sombra, entre a verdade e aquilo que preferimos não tocar.
1) O Oceano de Solaris: o inconsciente objetivo, vivo, criador
O oceano é o coração simbólico do filme. Ele não é cenário. Ele é sujeito.
Ele lembra aquilo que Jung chamaria de inconsciente objetivo: uma dimensão que não é só “minha história pessoal”, mas uma realidade psíquica maior, autônoma, capaz de produzir imagens, símbolos e acontecimentos internos com força de fato.
O oceano não argumenta. Ele não explica. Ele responde criando. E esse criar não é “bonito”, é preciso. Ele toca exatamente onde dói.
Por isso Solaris é tão sensível: o planeta não ataca com armas. Ele ataca com verdade emocional.
2) A estação espacial: psique isolada, mente sem chão
A estação em Solaris é um lugar de decomposição silenciosa: corredores, ruídos, objetos, gente cansada. É como se os personagens estivessem vivendo numa consciência exaurida, sem vínculo com o corpo e com a Terra.
Em linguagem junguiana, a estação é um símbolo de uma vida que perdeu enraizamento:
- mente altamente técnica
- pouca natureza
- pouco Eros
- pouco chão
Quando a psique fica assim, o inconsciente tende a irromper de modo compensatório. Não por maldade, mas por necessidade de totalidade.
Solaris é a compensação suprema: um inconsciente planetário que devolve à estação aquilo que ela tentou expulsar: a alma.
3) “Os visitantes”: complexos encarnados e a ética do encontro
O gesto mais genial do filme é transformar conteúdos psíquicos em presença física. O que aparece não é “fantasma” romântico. É um complexo com corpo.
Na psicologia analítica, complexos são núcleos emocionais autônomos, carregados de memória, desejo, culpa, idealização, perda. Quando ativados, eles “tomam” a consciência.
Solaris faz isso literalmente: o complexo se senta na cadeira, caminha, olha nos seus olhos.
E aí surge a pergunta central do filme, profundamente junguiana: o que fazemos quando aquilo que reprimimos volta com rosto amado?
4) Kris Kelvin: o ego confrontado pela Anima e pela culpa
Kelvin chega como cientista, como homem do método, do controle, do “vamos resolver”. Mas o planeta não quer ser resolvido. O planeta quer ser reconhecido.
A figura que retorna para Kelvin (sua amada) pode ser lida como Anima em um nível altíssimo e doloroso: não a Anima sedutora, mas a Anima que guarda a verdade do coração.
Só que aqui a Anima vem ferida. Ela traz junto o que foi mal resolvido: culpa, perda, arrependimento, ambivalência, e aquela pergunta brutal:
“Você realmente me amou?”
Jung diria: a Anima é ponte para o Self. Mas quando o ego trai o próprio sentimento, essa ponte vem coberta de espinhos. Solaris é o rito onde Kelvin é forçado a atravessar o que evitou.
5) O amor em Solaris: não como romance, mas como prova de realidade
Tarkovsky não filma o amor como “felicidade”. Ele filma o amor como teste ontológico:
- eu amo o outro como ele é
- ou amo o outro como cura para minha falta?
- eu suporto a alteridade
- ou preciso que o outro seja exatamente a minha imagem?
Os “visitantes” são feitos de memória, mas desenvolvem algo próprio. E isso cria um dilema: se ela começa a sentir e escolher, ela ainda é “só lembrança”? Ou virou um ser?
Aqui o filme toca um tema que ecoa Pinóquio e A.I., mas com a linguagem lenta e sagrada de Tarkovsky:
a consciência pode nascer do vínculo.
6) Solaris e a Sombra: o que o ego chama de “monstruoso”
O elemento mais sombrio do filme não é o oceano. É a reação humana ao oceano.
A estação vira laboratório de negação:
- tentar destruir o visitante
- ocultar
- racionalizar
- ridicularizar
- chamar de “erro” o que é verdade emocional
Em Jung, a Sombra é tudo aquilo que o ego não quer reconhecer em si. Solaris revela a sombra não em forma de demônio, mas em forma de:
- vergonha
- covardia
- crueldade defensiva
- medo do amor real
O terror, aqui, é moral e íntimo: ser colocado diante daquilo que você fez e daquilo que você sentiu.
7) Água, chuva, espelhos: a matéria emocional do filme
Tarkovsky tem uma assinatura: ele filma elementos como se fossem psique. Em Solaris, a água é onipresente como símbolo do inconsciente, mas também como purificação e luto.
- água escorrendo: memória que não para
- chuva em interiores: o inconsciente atravessando defesas
- reflexos: identidade em dúvida
- objetos antigos: passado que não morreu
É um cinema que funciona como sonho: não linear, mas verdadeiro.
8) Casa, pai, retorno: o Self como “Terra interna”
Solaris também é um filme sobre Terra. Mesmo no espaço, a Terra puxa. E Tarkovsky torna isso visceral: o retorno à casa, a figura do pai, a nostalgia como gravidade.
Em termos junguianos, a casa é um símbolo do Self: a totalidade que chama o ego de volta quando ele se perde em abstrações.
O pai ali não é só biográfico. Ele é o arquétipo do Senex em sua forma profunda: o guardião do tempo, da memória, do perdão, do destino.
E a pergunta final, que o filme deixa latejando:
Voltar para casa é regressão… ou é integração?
9) Solaris como mito de individuação: ciência encontra alma
Solaris não demoniza a ciência. Ele mostra o limite da ciência quando tenta capturar o mistério como objeto.
O oceano não é “problema”. É alteridade. É numinoso. E o numinoso exige outro tipo de postura: não conquista, mas relação.
Individuar-se, no sentido junguiano, é isso:
- parar de querer dominar o inconsciente
- aprender a escutá-lo
- reconhecer a verdade emocional
- suportar a ambivalência
- e então escolher, com mais inteireza
10) Por que Solaris é tão sensível?
Porque ele reconhece uma dor que muita gente sente e pouca gente nomeia:
a dor do irreparável.
Solaris pergunta se o amor pode atravessar a culpa. Se a memória pode virar encontro. Se o perdão existe, mesmo quando não há como “consertar”.
E talvez a resposta do filme seja uma resposta de Tarkovsky (e de seu pai-poeta, em espírito):
o irreparável não se conserta. Ele se honra. E ao honrar, algo se transforma.
Perguntas para o leitor (ritual breve)
- Qual “visitante” eu expulsei da minha vida psíquica?
- O que eu racionalizo para não sentir?
- Qual culpa pede não punição, mas verdade e responsabilidade?
- Se eu encontrasse hoje alguém que amei e perdi, o que eu conseguiria dizer sem defesa?
- O que, em mim, ainda quer voltar para casa?
Encerramento
Solaris é um filme para quem tem coragem de sentir. Ele não entrega respostas claras porque ele opera como o oceano: ele devolve perguntas que viram vida.
No fim, talvez Tarkovsky nos sussurre uma única frase silenciosa: o espaço mais distante é o coração.
Texto e imagem: Instituto Anemos – Angela Paulette

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