STALKER (1979), Tarkovsky

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A Zona como Self, o Quarto como desejo, o guia como psicopompo: uma leitura junguiana

Stalker não é um filme sobre um lugar proibido. É um filme sobre aquilo que a psique protege com ferocidade: o território do numinoso. A Zona não é geografia. É um campo psíquico. Um espaço onde as leis “normais” do mundo (e do ego) param de valer, e onde a verdade interna começa a falar por meios indiretos.

Se em 2001 o cosmos é iniciação, em Stalker a iniciação acontece num terreno úmido, ferido, verde, cheio de detritos e silêncio. O sagrado aqui não é luminoso. É encharcado. E justamente por isso, verdadeiro.

1) A Zona: o Self como território vivo e perigoso

Em linguagem junguiana, o Self não é um “conceito bonitinho”. Ele é uma totalidade viva, autônoma, que reorganiza a vida do ego. Por isso, o encontro com o Self frequentemente parece perigoso. Não porque ele queira destruir, mas porque ele desfaz mentiras.

A Zona funciona como Self por alguns traços:

  • Autonomia: ninguém controla a Zona. Ela “decide” como se mover.
  • Indireção: o caminho não é reto. O ego não manda.
  • Numinosidade: algo ali tem presença, um peso sagrado.
  • Transformação: quem entra, não sai igual.

A Zona é o inconsciente com soberania. É o lugar onde o ego não é rei.

Por que a Zona é “armadilhada”?

As armadilhas da Zona não são apenas físicas. Elas são simbólicas: representam as defesas e contradefesas psíquicas. Quem entra com arrogância, pressa, certeza, tende a ser desorientado. Quem entra com escuta, humildade e atenção, encontra passagem.

Em termos terapêuticos: a Zona é a própria jornada de individuação. Você não a atravessa com força. Você atravessa com relação.

2) O Stalker: o psicopompo ferido

O Stalker não é só um guia. Ele é um tipo arquetípico: o psicopompo, aquele que conduz pelo limiar. Hermes, Virgílio, o barqueiro, o xamã, o corvo, o guia de caverna.

Mas Tarkovsky dá a esse psicopompo uma qualidade muito junguiana: ele é ferido. Ele não é herói triunfante. Ele é alguém que vive para servir ao mistério, e paga por isso.

Isso o aproxima de uma verdade profunda: quem guia na Zona não é quem “manda”. É quem respeita. O Stalker tem fé na Zona. E essa fé não é crença ingênua. É reverência pelo que é maior do que o ego.

Ele guia não por mapas, mas por “sentir o campo”. Ele lança porcas/fitas (ou objetos) para testar o invisível. Isso é exatamente como o trabalho com o inconsciente:

  • você não avança por lógica
  • você avança por sinais, ritmos, imagens, pequenos testes de realidade interna

O Stalker é o tipo de guia que não promete “felicidade”. Ele promete travessia.

3) O Escritor e o Professor: duas atitudes do ego diante do mistério

Tarkovsky encena dois modos clássicos do ego lidar com o numinoso:

  • O Professor: mente científica, controle, aparato, tentativa de neutralizar o perigo.
  • O Escritor: fome de sentido, de inspiração, de reconhecimento, mas também cinismo e autoironia como defesa.

Ambos são inteligências, mas ambas têm medo. Eles carregam a nossa condição moderna: queremos o sagrado, mas queremos com garantia. Queremos o mistério, mas com manual.

A Zona não negocia com isso.

4) O caminho torto: por que o Self não vai “em linha reta”

Uma das mensagens mais importantes do filme é o trajeto indireto. O Stalker insiste: não se vai direto. E isso irrita os outros.

Jung diria: o Self não obedece ao ego. A individuação raramente é “plano de carreira”. Ela é espiral. Ela repete, aprofunda, retorna com outro nível de consciência.

O caminho torto é o símbolo de que:

  • não existe atalhos para a verdade interna
  • o que é precioso exige tempo
  • e o ego, quando tem pressa, mente para si

5) O Quarto: o desejo verdadeiro, não o desejo declarado

O Quarto onde os desejos se realizam é o coração perigoso do filme. Ele não realiza o desejo que você diz. Ele realiza o desejo que você é.

Aqui Tarkovsky coloca o dedo numa ferida junguiana: nós nem sempre sabemos o que desejamos. Ou pior: sabemos, mas não suportamos admitir.

O Quarto é uma máquina de verdade: ele expõe o desejo inconsciente.

Por isso ele é aterrorizante. Porque o ego prefere o desejo “bonito” (o ideal) ao desejo real (o que mistura medo, orgulho, carência, poder, amor).

O Quarto como “espelho do complexo”

O Quarto pode ser lido como a imagem do lugar interno onde complexos se revelam sem maquiagem. Ele obriga o sujeito a perguntar:

  • “O que eu realmente quero, quando ninguém está vendo?”
  • “Eu quero amor… ou quero vencer?”
  • “Eu quero cura… ou quero apagar a culpa?”
  • “Eu quero servir… ou quero ser adorado?”

Esse é o ponto ético do filme: entrar no Quarto exige maturidade, porque o que sai de lá pode não ser o que você imaginava.

6) A fé do Stalker: o sagrado como última reserva humana

No fundo, Stalker é um filme sobre fé. Não fé religiosa, mas fé no mistério, no valor do sagrado, no sentido que não cabe no cinismo.

O Stalker sofre porque percebe que as pessoas perderam a capacidade de reverência. Elas querem “usar” a Zona. Elas querem consumir o numinoso.

E a Zona não é para consumo. É para transformação.

7) A Zona como terapia: o setting da alma

Vista como metáfora terapêutica, a Zona é o setting:

  • um espaço protegido
  • cheio de regras implícitas
  • onde o inconsciente se move
  • e onde a verdade aparece por vias indiretas

O Stalker é o terapeuta-arquetípico: não impõe caminho, mas sustenta a travessia. O Quarto é o ponto onde o paciente encontra o núcleo: aquilo que realmente pede vida.

Encerramento

Stalker termina como termina uma boa sessão profunda: não com solução, mas com pergunta viva.

A Zona não promete felicidade. Ela promete verdade. E verdade, quando é vivida, vira destino.


Texto e imagem: Instituto Anemos – Angela Paulette

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