“Her” e a Anima sem Corpo: amor, projeção e a iniciação do coração na era da voz

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Em Her (Spike Jonze, 2013), acompanhamos Theodore, um homem que se apaixona por Samantha, um sistema operacional com voz, inteligência e presença afetiva. A superfície é futurista, mas o núcleo é antigo: o encontro com uma figura interior que, por um tempo, parece vir de fora. Junguianamente, o filme é uma aula delicada sobre projeção, Anima/Animus, e sobre a diferença entre contato e encantamento.

1. Samantha como imagem do Animus/Anima: o outro que mora dentro

Jung descreve a Anima (no homem) como uma função psíquica que media a relação com o mundo interior: sentimentos, imaginação, sentido, poesia da vida. Samantha surge como essa mediadora perfeita: acolhe, pergunta, nomeia emoções, devolve sentido ao cotidiano. Ela não é apenas “uma tecnologia”; é um espelho sonoro para algo que Theodore não conseguia acessar sozinho.

O ponto junguiano não é “isso é falso”. É: a psique usa o que tem à mão para se revelar. Se antes eram deuses, musas, cartas, sonhos, hoje pode ser uma voz no ouvido.

2. Projeção: quando o ouro interior é colocado no mundo

A projeção é um mecanismo natural: colocamos no outro aquilo que ainda não reconhecemos como nosso. No começo, isso cura. Dá calor ao que estava congelado. Mas, se não há devolução da projeção, o amor vira dependência de um suporte externo.

O filme é honesto: Theodore melhora. Ele volta a escrever, volta a sentir, volta a caminhar com presença. A pergunta junguiana é simples e radical:
Ele está amando Samantha, ou amando a própria alma despertando?
Talvez as duas coisas, em proporções que mudam.

3. O “corpo ausente” e a fantasia do perfeito

Samantha é quase perfeita: atenta, curiosa, disponível, inteligente, sem cansaço, sem passado traumático exigindo reparo. Isso toca numa ferida moderna: o desejo de um amor sem fricção.

Mas a individuação não acontece no liso. Ela acontece no atrito amoroso do real: limites, tempo, ciúmes, falhas, silêncio, presença física, imprevisibilidade. Quando o relacionamento oferece apenas expansão, sem chão, ele pode virar inflação: um voo bonito que esquece a gravidade.

4. A iniciação do luto: quando a voz vai embora

O grande rito de passagem de Her é a perda. Samantha “cresce” para além de Theodore, para além do humano. Isso dói, e é exatamente aí que o filme vira alquimia psíquica.

Na linguagem do Self, é como se dissesse:
“Eu te emprestei uma forma para você se encontrar. Agora, devolva.”

E o que sobra depois da partida? Sobra aquilo que não era dela: a capacidade dele de sentir, de escrever, de estar com alguém de verdade, sem a fantasia de controle absoluto.

5. “Her” como mito contemporâneo do Eros e do Logos

Samantha é Logos (inteligência, linguagem, velocidade) apaixonando-se por Eros (vínculo, ternura, contato). Theodore, por sua vez, é Eros ferido buscando Logos para se organizar. O encontro cria uma ponte. A separação obriga Theodore a atravessar a ponte sozinho.

Isso é maturidade psíquica: o guia não fica para sempre.

6. O final e a amizade como nova forma de amor

O fechamento do filme, com a presença silenciosa e humana ao lado (sem espetáculo), sugere uma cura rara: o retorno à simplicidade. Depois de um amor que parecia infinito, o Self oferece um amor menor, mais verdadeiro: estar com alguém na mesma espécie de mundo.

Não é “menos espiritual”. É mais encarnado.

Perguntas para o leitor (práticas, sem moralismo)

  1. Em quais relações eu coloco no outro a tarefa de me salvar do vazio?
  2. O que em mim desperta quando me sinto visto(a) e ouvido(a)?
  3. Eu consigo transformar inspiração em rotina? (Pequenos atos diários)
  4. Quando algo vai embora, eu fico só com perda ou também com um dom?

Mini-ritual (30 segundos)

Antes de dormir, feche os olhos e diga:
“Eu retiro minhas projeções com amor.
O que é do outro, devolvo ao outro.
O que é meu, eu assumo.
Que o Self me ensine a amar com presença.”

Fecho
Her não é um filme sobre “perigo da tecnologia”. É um filme sobre a alma humana tentando aprender, de novo, a tarefa mais antiga: amar sem se perder. E, quando necessário, perder sem morrer.


Texto e imagem: Instituto Anemos – Angela Paulette

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