Vox Novus no Queens New Music Festival: Uma Jornada Sonora

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No dia 1º de maio, o Vox Novus retornou ao Queens New Music Festival, em uma noite conduzida por Robert Voisey, diretor e apresentador do Vox Novus e do projeto Fifteen-Minutes-of-Fame. O programa, realizado no Culture Lab, em Long Island City, reuniu compositores de diversos países, intérpretes, dança, performance, harpa, piano, toy piano, violino e corpo em movimento.

A primeira música foi de Jane Wang. E havia algo profundamente simbólico nesse início: como se a noite abrisse uma janela com delicadeza, antes de nos conduzir por uma verdadeira travessia sonora.

Não foi apenas um concerto. Foi uma jornada.

A primeira parte, com a harpista Alyssa Reit, parecia pertencer ao reino da luz. A harpa surgia como nuvem, sopro, aura, pássaro, céu azul. Em certos momentos, parecia que o som não tocava apenas os ouvidos, mas o campo sutil ao redor do corpo. Havia ali uma verticalidade delicada, quase angélica, como se cada corda abrisse um fio entre o visível e o invisível.

A afinação da harpa.

Era uma música de ar, de brilho, de passagem. Um chamado para lembrar que ainda existe beleza mesmo quando estamos cansados, mesmo quando o mundo pesa, mesmo quando a alma parece ter esquecido o próprio voo.

Depois, com a entrada do piano e do violino, o campo mudou. A luz da harpa deu lugar a uma região mais densa, mais corporal, mais sombria. A música pareceu descer ao ventre. Surgiram imagens de nascimento, água interna, tensão, medo, contração. Não era mais apenas a anunciação de algo maior: era o esforço para que algo pudesse nascer.

O violino trazia uma linha quase anunciadora, enquanto o piano dava corpo e gravidade ao processo. A sensação era de uma vida lutando para atravessar uma passagem estreita. Difícil, mas viva. Dolorosa, mas necessária.

A noite mostrava, assim, uma verdade profunda: a luz anuncia, mas é na sombra que o nascimento acontece.

Em seguida, com Eunmi Ko ao piano, e depois com o toy piano, o festival entrou em outra camada. O som cristalino trouxe uma sensação de infância, descoberta e mundo recém-nascido. Depois da dor do nascimento, vinha o pulso da vida: às vezes forte, às vezes sereno, alternando impulso e delicadeza, como uma consciência nova descobrindo o espaço ao redor.

O toy piano, com sua sonoridade pequena e luminosa, parecia abrir uma floresta encantada. Surgiam imagens de cristais, raios de luz, espíritos brincando, sombras aproximando-se, encontro com o desconhecido, morte simbólica e renascimento lento. Havia algo de lúdico e inquietante ao mesmo tempo, como acontece nas verdadeiras imagens do inconsciente: elas nunca são apenas belas, nem apenas sombrias. Elas são vivas.

Na segunda parte, com a colaboração coreográfica de Rachael Kosch e a presença dos dançarinos e performers, a música ganhou corpo. O som já não era apenas ouvido; ele era visto, encarnado, atravessado por gestos, figuras e presenças.

Entraram bailarinas, figuras solitárias, crianças simbólicas, presenças aquáticas, fadas, sacerdotisas, pares em tensão, corpos que pareciam duelar, brincar, procurar, cair, levantar, reunir-se. Em alguns momentos, a cena parecia uma mandala viva: muitas partes da psique aparecendo uma após a outra, cada uma com sua cor, sua função, sua linguagem.

Houve uma figura dourada que parecia carregar a presença do Self: delicada, mas soberana. Houve uma criança divina, como promessa de recomeço. Houve solidão, depois comunhão. Houve multiplicidade, depois reunião.

No final, todos os dançarinos se reuniram. O piano sustentava o ritmo, como se por trás de tantas figuras existisse um único pulso. Cada corpo parecia representar uma parte diferente da alma, e todas voltavam ao mesmo campo.

Foi então que os pequenos tijolinhos coloridos no palco ganharam sentido. À primeira vista, pareciam apenas objetos lúdicos. Mas, depois de toda a jornada, tornaram-se símbolo: muitos compositores, muitos países, muitos idiomas, muitos corpos, muitos sons, muitas miniaturas, todos construindo uma única arquitetura musical.

Cada peça era um tijolo.
Cada intérprete, uma ponte.
Cada gesto, uma linguagem.
Cada som, uma pequena morada para o invisível.

O Vox Novus e o projeto Fifteen-Minutes-of-Fame reafirmam justamente essa força: criar encontros entre compositores e intérpretes, abrir espaço para novas linguagens, permitir que obras breves, vindas de diferentes lugares do mundo, se unam em uma experiência coletiva.

Fiquei sem fôlego.

Por algumas horas, esqueci meus problemas. Não por fuga, mas por presença. Estive ali de corpo e alma, acompanhando a música como quem atravessa um sonho acordado. A noite começou com harpa e luz, desceu pela sombra do nascimento, encontrou o pulso do piano, brincou com o cristalino do toy piano, encarnou-se em performance e terminou em reunião.

Talvez seja isso que a arte faz quando encontra sua função mais profunda: ela nos devolve ao mundo, não como ele é apenas, mas como ele ainda pode ser reconstruído.

Peça por peça.
Som por som.
Corpo por corpo.
Tijolo por tijolo.

Muitos países, muitas vozes, uma só mandala sonora.

E, por um instante, a música nos lembra que pertencemos a uma obra maior.


Texto e Imagem: Instituto Anemos – A. Paulette

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